Elogio à épica do Futebol – Argentina na Copa

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Faz tempo que não escrevo no blog, mas estou sempre escrevendo.  O blog tem muito visitante, coisa boa. Agradeço a todas (os) pelo carinho e mensagens.

O outro dia escrevi um texto para o site do Juca Kfouri sobre a ultima partida da Argentina contra Nigéria.  A seguir o texto, espero que curtam!

diegooo

Diego Marado – Copa do Mundo 2018 – Imagem El Pais.

 

Jorge Luis Borges, escritor argentino, não era amante do futebol. Falava que quando chegava o mundial, ele fugia para lugares onde era impossível que alguém falasse do campeonato. Quando alguém perguntava pelo esporte dominado pela redonda, ele indicava: “O futebol é esteticamente feio. Onze jogadores contra outros onze correrem atrás de uma bola não é especialmente bonito”. Tinha um profundo ódio ao futebol. Não somente a ele. “É popular porque a estupidez é popular”, sinalava o gênio. Sempre me inquietou esse fato. Um cara do tamanho dele não entender de épica, justamente ele, um dos maiores criadores.

Ontem, 26 de junho, a seleção argentina entrou no mundial. Não pelo jogo, nem
pelo gol de Messi. Mas porque se encontrou com a épica. E o sofrimento foi épico. E não só ele. A partida foi um quadro épico completo, barroco.

Na semana prévia ao jogo muita coisa se falou sobre a seleção, das piores coisas. Na era dos adoradores da mentira, a seleção foi fértil alvo criativo. Nada de futebol, muito de fofoca. Os jogadores entraram em campo sob suspeita de uma revolta, a revolução dos jogadores. Disseram que eles tomaram a patronal, o mando. Ninguém sabe a ciência certa do que aconteceu, mas a mística já estava no campo. Claro, liderados pelo o ídolo silencioso, que só sabe falar a língua dos pês.

O dia tinha silhueta de quadro de Caravaggio: um dia barroco com feixes de sol
santo que escolhiam o destinatário. E no centro, o guardião da seleção, aradona, iluminado pelos raios puros, puxando todos os olhares nas suas costas, amenizando os nervos iniciais da infinita torcida argentina. Em alguns momentos não se sabia onde se jogava a partida, na arquibancada ou no campo. As câmeras estavam mais preocupadas pelos movimentos do Diego que do Messi. O símbolo da transferência da épica. Os dois no mesmo espaço tempo, uma herança transmitida ao vivo.

O gol de Lionel teve seu carimbo de genialidade, só pra lembrar que ele não é deste planeta. Ou pelo menos, tem o mesmo passaporte que Diego. Assim, o festejo, com os braços para cima, querendo abraçar o céu e se juntar às mãos do Maradona. Os deuses se encontravam num grito sagrado. A religião multiplica a mística.

Já não havia em campo uma equipe destruída animicamente, senão uma ave fênix que, como Diego, sempre renasce das cinzas. Mas como toda épica, o sentimento não pode ser linear, mas sim tem as formas de uma montanha russa de emoções. Da felicidade do gol à tragédia do empate dos nigerianos. Nesse momento, o time mostrou o melhor e o pior que temos: desespero e determinação. Mascherano se tornou rapidamente na figura de primeiro coadjuvante, com sangue na cara e atitude de prócer. Só lhe faltou o cavalo. Não era o futebol, era a épica.

No espetáculo, a plateia dividia o palco. Os passes errados quase mudavam de direção pela presença da torcida, cuja força do canto parecia influenciar a trajetória da bola. Se Argentina jogava contra Rússia, eles seriam visitantes. Por alguns momentos os cantos de força se misturavam a uivos de sofrimento que doíam até no adversário mais obstinado. Mil vozes se corporizavam numa só, forte, que crescia e emocionava. A épica começava a estar presente também na arquibancada.

Quase no precipício do tempo, o jogador Rojo fez um gol que liberou as frustrações históricas, presentes e futuras. Tudo se mistura. Eu não escolhi gritar o gol. Uma voz descontrolada me tomou desde o centro neural do estomago e, como um parto, viu a luz gritando. Muito tempo mastigando bronca e imponência. Argentina é líder mundial do sofrimento e de governos ruins. Depois do grito, eu, como todo o resto, tinha emagrecido, ficado mais novo, livre, como se a vida fosse mais leve. Só por uma bola que tocou a rede. Todas as texturas dos sentimentos que cabem dentro do corpo de um ser humano estiveram presentes na partida. Um tsunami de emoções que se materializa com um grito liberador.

Nada disso compreendia Borges. Enquanto os jogadores ainda estavam se abraçando, Diego Maradona passou mal, porque até seres de outros planetas não podem lidar facilmente com emoções e sentimentos que o futebol nos proporciona e nos expõe. Alguns falaram que ele teve uma parada cardíaca, procurando fechar perfeitamente a épica em estado puro: a vida da seleção, do novo gênio e a despedida do gênio guardião. Os círculos se fechavam.

Mas ele não morreu e a épica e mística se multiplicaram: Vida, morte, sofrimento, autogestão, revolução, impotência e a felicidade em formato de grito. O juiz decretou o final da partida, mas ninguém deixou seu lugar. Todos, jogadores, torcedores e gênios unidos pelo sentimento épico que a seleção finalmente tinha chegado à Rússia.

O tango, segundo um especialista, é o sentimento triste que se dança. O futebol não é diferente. É um sentimento que se dança. E esse sentimento, sua profundidade e intensidade é proporcional ao tamanho da épica, da mística. Como o tango.

Borges nunca entendeu o popular mesmo tornando-se um. E o futebol não é um esporte na era do entretenimento hipnótico, mas um sentimento geometricamente redondo. E quando esse sentimento tem características específicas, se torna num sentimento épico, místico, único. Como a seleção. E uma seleção que tem um motivo épico, é um time com mística. Mesmo que não seja estético. A estupidez pode ser popular, mas a épica é universal.

Link do Blog do Juca: LINK

 

Curtam dos Aires da Copa!

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Feliz 2018 !!

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Pessoal: Desejo um ótimo 2018 para todas e todos!
 
O ano só esta começado, ainda provando a vestimenta. Vai ser um ano de resistência, em defesa da democracia e contra a violência.
 
A maluquice tomou conta da politica no planeta todo. O ódio e a pouca tolerância são as características de nosso tempo. Pareceria que a diversidade e o diferente esta sob ataque. 

 

Cada um faz sua parte, faz a diferença, e é parte deste processo ser generosos, tolerantes, respeitosos, integradores e defender a inclusão e a diferença. Escutemos mais, olhemos mais aos olhos, abracemos mais, enfim, que floresça o melhor que temos. Não precisamos estar de acordo, o conflito é parte, mas o respeito é fundamental, sem ele, todo se quebra.
Desejo um 2018 cheio de respeito, ativismo em defensa da democracia e a inclusão. Num ano que começa com um horizonte com tormentas pela frente, ser comprometidos é fundamental!. E o compromisso é com todos, porque só somos quando todos somos.
 
Então, tomemos com calma, carregamos a pilhas, e não esqueçamos que num mundo hostil e com muita dor, as pessoas fazem a diferença. Cada um de vocês faz a diferença!
Curtam dos Aires Buenos do 2018!

A Arte Salva: o coletivo sobre o individual

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Momentos sombrios vive o mundo em geral e a América Latina em especial. Mas a arte é esse refugio que nos salva, que cria a realidade, que nos ensina a beleza da humanidade. A gente faz o impossível para boicotear qualquer projeto da inclusão. Mas arte nos guia, nos cria caminhos e nos salva.

No ultimo Lollapalooza 2017 foi um festa em Buenos Aires. Mais que isso, o show de The Stroke foi segundo eles o maior de todos. O publico fez de um show, um show único. Porque o coletivo nos alimenta, porque somos o outro e não simplesmente o individual. E quando o coletivo é alimentado a arte o resultado é fenomenal.

Se você esta num desses dias, nublado, obscuro. Bom, assista os videos aqui embaixo. Porque no final, todos somos um. Somos o outro. 

 

Show The Stroke em Lollapalooza 2017 Buenos Aires. 

 

Sim, a introdução é CUMBIA!. Se vocês querem escutar a versão e mix original: LINK

 

Mas não foi só nesse show que o publico demostrou a potencia do coletivo. No 2009, Oasis fez mais uma visita a Argentina, e desta vez fez um dos melhores show da sua historia.

 

Oasis 2009 Argentina

 

 

O mesmo aconteceu no já historio show de AC-DC em River Plate, Buenos Aires 2009. 

 

Enfim, sejam pacientes, se relaxem e peguem energia do coletivo e da arte, juntas são potencia pura. Pura humanidade. 

 

Curtam dos Aires Buenos da arte e do Coletivo!

O Futuro interpreta o passado: final de semana a puro Rock

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soda

Soda e cique

As grandes bandas voltam ao cenário. Mas desta vez com interpretações interessantes e inovadoras.

Soda Stereo esta na boca de todos pelo show “No Descansaré” do Cirque du Soleil. Uma produção inspirada na sua música e historia.

Mais informação: lINk

Ingressos: Aqui

 

indio

Indio ao vivo!

Do lado oposto e ainda em atividade, El Indio volta ao vivo, desta vez na cidade de Olavarria, província de Buenos Aires. Se estima que quase 150.000 estarão presentes na comunião Ricotera.

Mais informação: aqui

 

Ceremonia

RP e sua ceremonia homenageada!

Finalmente, los Ratones paranoicos tem mais uma homenagem ao seu Rock. “Ceremonia” o tributo aos Ratones Paranoicos feito por bandas novas e inovadoras e editado por Geiser Discos.

juanse faando sobre a homenagem

 

Mais informação: aqui e aqui

juanse escutando a homenagem: Aqui

 

Callate Mark com sua Versão de “Enlace”

Para Siempre – Francisca y Los Exploradores (ft. Julieta Venegas)

Curtam dos Aires Buenos da Musica

 

Cinema Argentino: Cidadão Ilustre ao Oscar.

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el-ciudadano

Assisti o Cidadão Ilustre no Festival do Rio 2016. A sala estava lotada, nem uma cadeira livre. Ao terminar o filme, toda a plateia ficou em pé, aplaudindo. Gostei e muito.

O cidadão Ilustre é uma boa surpresa. Não porque os diretores (Mariano Cohn y Gastón Duprat) não tenham dado antes outras surpresas como por exemplo: “El Artista” (2008), “El Hombre de al Lado” (2009), y “Querida, voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo” (2011).

O Daniel Mantovani (Martinez), ganhador do Premio Nobel de literatura faz 40 anos que não regressava a Salas, sua pequena cidade na Argentina, que o convida para receber o premio de cidadão ilustre.

Um roteiro bem feito que coloca ao espectador numa volatilidade constante de sensações. O filme não para de inicio ao Fim. A partir de ideias simples de “cidade pequena inferno grande”, o filme é uma comedia, é um suspenso e é um drama costurado pelo humor no limite do grotesco. O filme tem contrastes e absurdos o tempo todo, exagerando e parodiando o tempo todo a vida e costumes de uma cidade pequena a partir dos passos do protagonista.  Nesse processo, existem uma infinidade de clichês e estereótipos argentinos com sentimentos universais. O filme a partir do humor (ironia e sarcasmo) coloca na mesa o intelectualismo, o egocentrismo, o cosmopolita, certos lugares comuns e misérias da argentinidade, e claro, a vida de uma cidade do interior de Buenos Aires.

Numa estética que de primeira parece simplistas mas que no correr do tempo é parte da linguagem para aumentar o sarcasmo e humor do filme. Um casting realmente bom, com um protagonista (Martinez) que sabe do que se trata seu trabalho, com bons personagens que rodeiam e multiplicam.

Li varias criticas, algumas que gostaram outras que falavam sobre o ruim e estereotipado do filme. Não se tomem tão a serio. O filme consegue colocar certos pontos, ideias de formas incomodas, com humor, mas não se trata de um artigo acadêmico sobre a misérias da argentinidade e as cidades pequenas. O filme consegue te fazer rir, te incomodar e ao mesmo alfineta ao espectador. O filme foi o escolhido para representar Argentino no próximo premio Oscar. 

Aconselho e muito!

 

Dados:

El ciudadano ilustre (Argentina-España/2016).

Direção e fotografía: Mariano Cohn y Gastón Duprat.

Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio, Nora Navas, Manuel Vicente, Julián Larquier, Belén Chavanne, Gustavo Garzón, Emma Rivera y Marcelo D’Andrea.

Roteiro: Andrés Duprat.

Música: Toni M. Mir.

Edição: Jerónimo Carranza.

Desenho de produção: María Eugenia Sueiro.

Distribuidora: Buena Vista International.

Duração: 118 minutos.

Apta para maiores de 13 anos.

 

Curtam dos Aires Buenos do Cinema!

Brasil e Argentina: um Amor-Ódio construído

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amizade

Já faz um bom tempo que moro no Brasil. E como argentino, a cidade me lembra minha nacionalidade a cada evento que a Argentina é parte. E os comentários são sempre bipolares: salientado o melhor ou o pior. Em geral o segundo.

Somos culturas complementares, não excludentes. O que a gente tem em demasia, o brasileiro carece. E, claro, vice-versa. Na Argentina, temos a crítica raivosa a tudo, a segurança do argento que o torna arrogante (mas na verdade é mais para o lado da ignorância), as cores monocromáticas, a latinoamericanidade, o vinho, o tango, os mullets, o drama, e o conflito em cada resposta. Tudo convive de forma harmoniosamente furiosa na nossa sociedade. Enfim, somos os melhores do mundo. O brasileiro, com sua leveza ante a vida, sua fortaleza, seu exagero, a sua infinita diversidade, a cerveja, sua complexa tolerância, o carnaval, a música, o nacionalismo, habitam “cordialmente” na contradição. Enfim, somos os maiores do mundo.

Desde que moro no Brasil, quando vem uma frente fria no Rio de Janeiro a apresentadora de TV fala: “Argentina novamente nos envia o mau tempo”. Isso é uma construção. Do vilão. Não é um produto inocente. A praia dos cariocas não depende da vontade do povo argentino. Também o Galvão Bueno falando “os Hermanos não são fáceis” de forma pejorativa e precariamente sarcástica, estendendo o conceito por fora do esporte. Ou, “Eu sempre torço contra eles, em tudo”. O mito do argentino mau e arrogante faz parte de uma construção histórica, mas multiplicada nas últimas décadas que nada fala das transformações e crises da Argentina. O Silvio Santos tenta representar ao argentino a traves de um Carlos Tevez acrônico, burro e pronto para ser humilhado. Longe de se tratar um humor inventivo, se trata da construção do preconceito, do vilão, do diferente que não é bom. De que temos medo?

O argentino não é fácil. É conflitivo ao extremo. Por isso a psicanálise deve ser o esporte preferido dos argentinos. Mas necessário. Porque Argentina é campeã na procura das misérias internas. A contextura física do argento se dá nas palavras. O sexo argentino se dá nos cafés e não nas praias. É a oralidade do sexo e não o físico dele. O “Brasil decime que se siente” é simplesmente a utilização dessa característica, mesmo sabendo da ausência de estrelas no escudo da seleção.

Mas essa construção do argentino nada coincide quando a conversa consegue atravessar o véu da ignorância do preconceito: porque vocês são mais políticos, vocês saem às ruas, vocês são mais educados, Buenos Aires é Europa (como si isso fosse um cumprido). Enfim, todos os países têm coisas boas e singulares.

O argentino é briguento, irritante, provocador. Carece de convivência com a diversidade. E talvez por ficar no fim do mundo precise notoriedade. Quer ser o melhor, mas isso fala da individualidade. Somos profundamente pouco tolerantes, com todos os significados que a tolerância abraçe.

Mas rivais? Rivais não somos. Somos rivais no futebol, mas não na vida. E essa é a visão mais ou menos existente na Argentina. Mas parece que a TV nos coloca como rivais, como irmãos distantes, ressaltando o que temos de pior. A construção só de uma faceta argentina, do mau. Mas o futebol não é a única arena da vida. É só uma delas. Somos dois povos irmãos que se gostam, mas se sacaneam o tempo todo. Isso não é ser rival, é saber incomodar ao outro. Como fazem os irmãos. Claro, também existem babacas. Mas neles nem importa a nacionalidade, existem em todos os lugares.

Porém, ao ligar a TV pareceria que as nossas relações são sintetizadas na perigosa imagem do futebol. E o futebol é paixão e irracionalidade, catarses de frustações. Mas nossas sociedades não são somente isso. Brasil não é só carnaval, é o povo trabalhador, e o argentino não é só tango ou Bariloche. Somos diversos, e de isso nos alimentamos. Se nos permitimos aceitar a redução de nossas singularidades a uma competição única como o caso do futebol, a gente perde a grande parte do que somos e do que precisamos para melhorar.

Eu adoro quando Argentina ganha do Brasil no futebol, mas depois disso continuo com o chopp no boteco. A vida continua, na boa, e fora do futebol é onde aprendo o tempo todo com os brasileiros o que minha cultura carece e o que ela tem de bom. Imaginem uma vida sem saideira?.

 

Curtam dos Aires Buenos da diversidade!